Querida amiga,
Uma das virtudes mais importantes é a de saber conhecer as pessoas. Quando se falha aí, a tragédia é quase certa… assim, se mo permite, escrever-lhe-ei algumas linhas sobre o que julgo haver de mais sábio a este propósito:
Em primeiro lugar, não se pode avaliar os outros sem ser com a medida que usamos para nos avaliarmos a nós mesmos. Não faz sentido querer saber tudo sobre o outro sem antes se ter esforçado por se conhecer a si mesmo.
Depois, devemos ter sempre em conta que as pessoas se revelam no tempo. Qualquer análise que seja feita com urgência será, quase sempre, errada. Ninguém se manifesta num momento ou dois. Não há pessoas simples, ninguém cabe dentro de uma explicação fácil e rápida. Somos unidades vivas que se desenvolvem de forma progressiva. A nossa identidade é um complexo equilíbrio dinâmico entre permanência e mudança.
Se não somos sempre o mesmo, também não mudamos a cada instante. As maiores mudanças na vida dão-se de forma subtil e quase despercebida. Há quem não se dê conta de que é hoje o oposto do que era há uns anos, porque estas inversões de rumo se dão sem qualquer choque ou movimento brusco.
Só com tempo podemos avaliar estagnações, evoluções e revoluções.
Tempo. Muito tempo. Tanto tempo quanto possível. Se lhe for necessário tomar uma decisão, importa que seja humilde a decidir, sem confiar demasiado na sua capacidade de ler sinais e padrões. A verdade é que a maior parte de nós prefere ficar apenas com aquilo que consegue compreender, ignorando tudo o resto… mas isso que pode parecer estar a mais é, muitas vezes, o mais importante… e só se deixará ver se lhe dermos tempo…
Mais, as pessoas nunca são o que parecem. Nunca. Nem mesmo quando parecem ser o que são. A aparência nunca é a essência. Há quem se sirva desta distância para criar ilusões, para se enganar a si mesmo e tentar enganar os outros…
Há quem não saiba dizer a verdade.
O que importa está dentro, para lá, do que se pode ver, ouvir e tocar. O exterior é apenas um suporte do interior, um meio para ele se revelar. Uma aparência, por si só e por mais bela que seja, não é nada, não serve para nada nem vale coisa alguma. O melhor de alguém nunca é evidente. O pior também não.
Importa ainda saber que uma pessoa não é apenas uma história passada. Muitos são os que falam de si mesmos como se se conhecessem bem, quando na realidade só relatam acontecimentos passados. Ora, essas autópsias revelam somente o que eles foram, não o que são: uma espécie de cadáveres sem presente nem futuro. É tão fácil cair neste erro… não é?
Cada um de nós é uma unidade onde passado, presente e futuro se enriquecem uns aos outros… o que somos resultará mais das ações do que das intenções, mais da vontade do que dos acasos, mais da esperança do que das lembranças.
É um erro comum prever o amanhã pelo hoje. Não somos sequências lógicas. Somos livres e é nesta incerteza, ínfima e infinita, que reside o sentido da nossa vida, a verdade da nossa autenticidade e o valor da nossa singularidade.
Mas, como creio que sabe, cara amiga, há quem, mesmo diante de provas da falsidade daquilo em que acredita, se agarre com uma vontade cega e redobrada às suas certezas… convencendo-se ainda mais das suas infundadas crenças…
Há pouca gente capaz de assumir a sabedoria da humildade, compreender e aceitar que se enganou, e que, por maior que tenha sido o seu investimento emocional, está na altura de lhe pôr um fim e mudar de rumo.
Tendemos a inventar histórias que nos ajudem a encontrar respostas sobre a identidade, a nossa e a do outro. É raro que consigamos pensar que um ser humano é um verdadeiro e profundo segredo e, por isso mesmo, nos enganamos de forma frequente, deliberada e cruel. A verdade é que quase nunca sabemos o porquê do que sentimos, embora estejamos quase sempre convencidos de que sim, por mais íntimas que sejam as nossas emoções…
Se aceitarmos que cada um de nós é um mistério que se revela ao longo do seu tempo, isso talvez ajude a dissipar as pressas que tantos tropeços e absurdos nos causam…
Por fim, peço-lhe que medite em algo que me tem ensinado muito: uma vela é o pavio, a cera é apenas o suporte. A sua verdadeira luz dá-se no tempo, não no momento.
Gosto de si, confio em si e rezo por si.
Obrigado,
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bom dia, bom fim de semana e boa semana!!!!
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José Luís Nunes Martins
domingo, 12 de abril de 2015
Fwd: as pessoas são um mistério
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